Vera Alves e Rui Pacheco: Uma nova forma de ótica

No verão de 2019, a nossa equipa foi atraída a Guimarães para a celebração da independência. Ou melhor, uma ótica e uma marca eyewear independentes saíram à rua e celebraram a arte e a beleza em óculos. Ficámos fascinados com o brilho da Ótica do Bairro Concept Store e com a leveza dos seus dinamizadores, Vera Alves e Rui Pacheco. Jovens, ela pneumologista de formação e ótica durante quase uma década, ele do marketing. Sentiram o apelo pelos óculos numa visita à MIDO e à famosa loja italiana Punto Ottico. Nasceu um reduto de paixão pela ótica em plena cidade fundadora do nosso país. Na difícil tarefa de se definirem como pessoas fora das fronteiras da Ótica do Bairro, olharam-se cúmplices confessando que não têm hobbies, nem paixões que justifiquem um foto de determinada direção. Mas enganam-se. Deixam transparecer o gosto que têm nas descobertas pelo exercício intelectual. Nas suas palavras descobrem-se dois empreendedores metódicos e informados, imparáveis e vocacionados aos grandes desafios. E parece que atraem a si um mundo que quer partilhar desta inquietude. Claro que, quando desligam este modo de “luta” vivem o melhor que a vida tem, nas viagens, nas experiências de bien vivre e no abraço da família que os motiva e os impele a crescer na direção certa: a sua! Sob este espírito, sentimos a inspiração de quem observa da primeira linha o desenvolvimento de um setor que continua a atrair as melhores pessoas para as suas fileiras. Vida longa à ótica!

Queriam algo que vos fizesse felizes todos os dias.

Vera Alves: Sim, e ficamos, também pelo cliente que nos entra pela porta, que embora seja mais exigente, identifica-se connosco.

E de facto já proliferam marcas alternativas incríveis, mas como é que a população de Guimarães absorve estes ideais?

VA: É um processo moroso e temos mais facilidade em passá-los aos turistas, não só os estrangeiros, que absorvem logo detalhes como a qualidade superior, se é feito à mão e adoram o conceito a até se queixam de não terem uma ótica do género perto de casa. A comunidade local ainda “desconfia”.

E não têm essa vontade, de levar a Ótica do Bairro para outras paragens?

VA: Vou ser sincera, já pensamos nisso! Aliás, já pensámos em tudo, porque a empresa arrancou lentamente. E não é só pelos óculos diferente, também pela loja e fomos alertados para isso, de sermos associados a um espaço caro.

Rui Pacheco: E na realidade a diferença entre nós e outra ótica qualquer não é tanta, a não ser que não temos um marketing agressivo como alguns grupos. No fundo os preços são os mesmos.

As concept store são ainda residuais no nosso país, principalmente ligadas à ótica. Será que é este o futuro da ótica, considerando que há grandes mudanças a acontecer?

RP: Na realidade a ideia de concept store enquanto lojas com múltiplos produtos recupera a “vida” das primeiras óticas, que vendiam joias e óculos, por exemplo.

E voltamos a esse conceito?

VA: No nosso caso, no início foi para fundamentar as marcas distintivas, mas pensando que no futuro podíamos introduzir algo diferente. Entretanto já tivemos joalharia de autor e cerâmica. E vamos pesquisando.

RP: Acredito que vai haver estas duas versões do retalho da ótica no futuro, em que de um lado mantêm-se os independentes e do outro os grupos que vão criando climas de monopólio. Há leis que deveriam ser aplicadas nestes casos, porque vão acabar por tentar travar o crescimento dos independentes.

VA: E quem quiser manter-se no mercado e independente terá que batalhar e distinguir-se precisamente nesse nível, vocacionados a clientes que não querem o que todos querem.

E está a nascer um novo tipo de consumidor.

VA: Isso está, consumidores que se querem diferenciar e que estudam os produtos.

RP: E para os independentes esse será o caminho. Os grupos continuarão a apostar no mass market que bombardeia as pessoas diariamente. E vai demorar muito tempo até que se imponha uma mudança mais transversal, décadas até. Somos um país envelhecido, sim, mas com uma esperança de vida em crescendo e as comunicações massivas ainda influenciam muito estas pessoas. Os mais novos já pesquisam online e analisam alternativas àquilo que veem nas comunicações massivas.

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